Às vezes tenho a impressão de que algumas músicas de Renato
Russo nos ensinam muito mais do que alguns sermões que são falados nos púlpitos de
algumas igrejas. Bom, mas isso é uma opinião particular!
Hoje tive a alegria de ouvir uma música que fazia muito tempo
que não escutava. Estava eu vindo para o trabalho, antenado em meus fones de
ouvidos, quando “Índios” começou à tocar. E uma estrofe me chamou muito a
atenção: “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”. Ao ouvir esta porção da
música uma luz de entendimento me arremessou para uma das diversas maneiras que
podemos nos definir. Somos espelhos, reflexo do nosso próximo. Quando olhamos
para uma pessoa, vemos o nosso “eu” refletido. Ali está escancarado a nossa
doença, o pecado, a queda, a necessidade de se lutar contra a rebeldia e de
buscar a verdadeira vida.
O mundo doente ao nosso redor é resultado da arrogância do
ser humano de achar que pode ter vida sem Deus. É a soberba do homem que se
acha autossuficiente e detentor de uma ética, moral e justiça incorruptível à
ponto de poder governar tudo e todos da maneira que achar melhor. É o homem
submisso ao seu próprio ego, baixando à cabeça para seus incontroláveis
apetites, passando por cima de tudo e todos para satisfazer as suas próprias
vontades.
O meu/seu próximo é o meu/seu reflexo. O meu/seu próximo
reflete à minha/sua miserabilidade perante ao mundo. Explicita a mina/sua
queda. Neste quadro todos nós se encaixamos e mediante à situação em que toda a
humanidade se encontra, creio que o fato de termos “espelhos”, ou em outras
palavras, pessoas, para nos enxergarmos, é de certa forma um ato de graça de
Deus para conosco. É Deus nos permitindo ver o quanto estamos atolados na queda,
o quanto somos pecadores, o quanto vivemos de modo doentio e o quanto somos, em
estado de pecado, uma doença no (e para) mundo.
Não se iluda, o homem que mata por 5 reais, o filho que mata
a mãe por causa da herança, o deputado corrupto que rouba para manter sua
mansão, o estuprador pedófilo que estrangula a criança sem piedade, o advogado
que defende o culpado, manipulando tudo e todos para inocentá-lo, por que irá
receber uma bolada de dinheiro...todos estes...e nós...todos nós...somos
farinha do mesmo saco! Carcaças de argilas pecadores, rebeldes que carecem, no
dia a dia, da atitude de crucificar o nosso ego juntamente com o Cristo para
que ali, a nossa doença, o nosso pecado, seja purificado e perdoado no sangue
de Jesus.
Quando andamos na rua e olhamos ao nosso redor, vemos os
sintomas da doença que se alastra sobre a face da terra: o pecado. Ao olharmos
para ele, vemos nosso reflexo. Dia após dia, ele vai se alastrando, aparentemente
como um looping, aparentemente como um ciclo infinito, proliferando a
desigualdade, o mal, a doença da nossa queda.
Mas eis que Ele, Jesus de Nazaré, nos deixou uma promessa já
consumada na cruz do calvário: Que, não por mérito/demérito, mas pela Graça de
Deus, pelo favor que jamais seremos merecedores, Deus nos perdoou! E que este
perdão é a cura da nossa doença chamada pecado. Que este perdão tem poder no
sangue de Jesus, e que este sangue rompe com o ciclo do pecado, rompe com o
looping da maldade humana. Que todos nós podemos participar deste perdão, pois
é um ato que provém de Deus e não do homem. E que Jesus irá retornar para
buscar àqueles que crerem e viverem (n)esta promessa.
Fora disso, seguimos doentes, seguimos como doença no mundo.
Fora disso seguimos como o Próprio Cristo falou: “Cegos guiando cegos!”. Cegos
incapazes de enxergar no outro o quanto somos doentes e o quanto precisamos da
graça de Deus.
Uma metade de mim é desastrada...e a outra... eu quebrei!
Quantas pessoas não se sentem assim? Quantas pessoas não se sentem incapazes de
fazer algo por que se auto julgam incapazes, e por conta disso, abrem mão de se
disponibilizarem a fazer algo por alguém?
Isso é muito comum nas igrejas. Gente que se acha incapaz de
fazer algo por que se auto julga incapacitado. Os homens partem da premissa de
suas lógicas e esquecem de que a lógica de Deus é a que vale. Em outras
palavras: que opinião vale mais...a sua opinião sobre si mesmo, a opinião dos
outros sobre você, ou o que Deus pensa sobre você?
Sem perceber criamos uma lógica doentia e absurda em nossas
mentes. Achamos que para ser útil, seja em uma igreja, uma ONG, ou até mesmo
dentro de nossa própria casa, precisamos ser perfeitos. Martinho Lutero certa
vez disse: O Amor de Deus não se destina ao que vale à pena ser amado! O Amor
de Deus cria o que vale a pena ser amado. Da mesma forma imagino que Deus não
escolhe servos que tenham a soberba de achar que são perfeitos no ato de
servir, mas Deus capacita àqueles que são os menores e estão dispostos à
servir.
Só há uma maneira de servir à Deus: servir à Deus é servir o
próximo. E próximo é aquele que está diante de ti, com todas as necessidades
escancaradas diante de seus olhos. A premissa para se enquadrar neste contexto?
O Amor, a disponibilidade, compromisso e...nada mais. O restante Deus faz.
Se você vive pensando que “uma metade minha é desastrada e a
outra eu quebrei”...e por conta disso se acha inútil na obra de Deus, saiba que
Deus não te vê desta maneira. Ele sabe que no Reino que Ele propõe você é peça
fundamental, peça chave...e Ele quer lhe capacitar. Essa não é uma mensagem
motivacional, essa é uma realidade espiritual. Vidas ao nosso redor dependem de
nós. Vidas ao nosso redor estão ali para serem alcançadas. Não para virarem
membros da igreja que frequentamos, mas para receberem o Evangelho da Graça de
Jesus, seja através de um simples sorriso que Deus lhe capacitou a dar, até um
simples ato de ouvir (inspirado por Deus) a um próximo que precisa desabafar.
Você olha para o ministério de música, de libras, de culto
infantil e pensa: “jamais eu poderei ajudar em algo como estas pessoas, não sou
vocacionado!”
Mas isto é mentira. Todo ser humano tem uma vocação: a de
ser tabernáculo vivo do Senhor. Deus desenvolve esta vocação em nós através do
Espírito Santo. À partir dela, talvez venhamos a descobrir que somos também
vocacionados à sorrir, abraçar, ouvir, chorar junto, celebrar junto...etc.
Então ai descobrimos nosso ministério e quando alguém perguntar...”qual o seu
ministério?” você responderá...”é sorrir...meu ministério é sorrir para quem
precisa de um sorriso!”...ou então você dirá “meu ministério é limpar o
banheiro da igreja, deixa-lo cheirosinho e limpinho para que todos possam usufruir
do mesmo durante as celebrações”.
Gosto muito de uma história contada pelo Pastor Ariovaldo
Ramos. Ele conta que um homem trabalhava cavando valas em uma equipe de
funcionários de uma prefeitura. Ao fim do expediente, todos os homens recolhiam
as enxadas e as demais ferramentas, colocavam em cima do caminhão e subiam para
ir embora. Enquanto isso este homem que cavava valas ficava paralisado, com os
braços apoiados na enxada, observando a vala em silêncio. Vendo esta cena se
repetir por diversas vezes, um de seus colegas o abordou e questionou-lhe: “Por
que você sempre faz isso? Por que sempre no fim do dia você fica parado olhando
para as valas que você cava?”. Então o homem lhe respondeu: “Este é o momento
em que ofereço a vala que eu cavei para Deus. Digo a Ele...Deus minha função é
cavar valas, cavei está com o melhor de mim, em todo o mundo podem haver boas
valas, mas nenhuma se compara a esta, por que cavei com amor, cavei ela consciente
de que outras pessoas serão beneficiadas por ela e então fiz o meu melhor...eu
ofereço este meu trabalho a ti!”.
Sabe, o podemos ser desastrados, e sentirmos incapazes de
fazer coisas. O problema é que deslumbramos as coisas mais especiais para
fazer, pois vemos nelas um certo glamour. E o ponto chave é: se a nossa função
é cavar valas...por que ficamos apontando nossos defeitos para uma função que
não seja cavar valas? Por que deslumbramos o glamour de sermos o “guitar-hero”
do ministério de música se a nossa função é cavar valas!?
Há um pensamento pré fabricado pela sociedade que diz “Ninguém
é insubstituível!”...mas creio que no quesito servir no Reino de Deus talvez
este pensamento não se encaixe. A começar por Jesus...se não fosse Ele
enfrentar a cruz por todos nós, qual outra pessoa enfrentaria? Da mesma forma,
eu, você e tantos outros temos uma função quando o assunto é tornar concreto
aqui e agora a maior densidade do Reino de Deus. Você pode dizer: “É ...mas se
o baterista sair do ministério de música existem 10 outros bateristas no banco
da igreja que poderão assumir o lugar deste que sair!”. O problema é que os 10
outros bateristas, apesar de terem o dom de tocar bateria, possuem já a sua
função na obra de Deus. E o cara que saiu, ao deixar a vaga nula, “obrigatoriamente”
vai retirar um dos outros 10 de sua função para substituí-lo. Sim, concordo que
isso é relativo, e que há as suas exceções, mas de fato cada um de nós
deveríamos assumir a função que nos cabe na obra de Deus, não com a soberba de
se achar insubstituível, mas sim com a consciência de que se somos vocacionados
a ser morada viva do Senhor, então há um jeito certo de viver e há uma
responsabilidade implícita nesta vocação de cuidarmos um dos outros, ou seja,
de servirmos uns aos outros...e por consequência...servirmos à Deus.
Quando acender em nossa mente o pensamento “Metade de mim é
desastrada e a outra eu quebrei” lembre-se de que isso é matéria prima nas mãos
de Deus, para que Ele lhe transforme em um ser por inteiro capacitado a caminhar
juntamente com Ele, anunciando o Reino que Jesus inaugurou.
Lembre-se: Amor, Disponibilidade, Compromisso e...nada mais!
Nisto compete o nosso ponto de partida para servir à Deus!
Amor...por que Nele se alicerça o caráter de Deus
Disponibilidade...por que é preciso estar disponível para
que o Espírito Santo possa agir...”disponibilizar-se” no sentido de dar vazão
ao agir de Deus
Compromisso...para que tudo e todos sejam alcançados de
forma responsável, conforme os valores demonstrados na Vida de Jesus Cristo.
Nada Mais...por que o restante cabe à Deus agir em nós
Ele (o Fariseu),
porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu
próximo?
E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem
de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o
despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.
E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho
certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo.
E de igual modo também um levita, chegando
àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao
pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão;
E, aproximando-se, atou-lhe as feridas,
deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma
estalagem, e cuidou dele;
E, partindo no outro dia, tirou dois
dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de
mais gastares eu to pagarei quando voltar.
Qual, pois, destes três te parece que foi o
próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?
E ele disse: O que usou de misericórdia para
com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira.
Lucas 10:29-37
Até Quando Esperar? – Plebe Rude
Se não é nossa culpa, nascemos já com uma bênção!
Mas isso não é desculpa pela má distribuição.
Com tanta riqueza por aí, onde é que está?
Cadê sua fração?
Com tanta riqueza por aí, onde é que está?
Cadê sua fração?
Até quando esperar?
E cadê a esmola que nós damos sem perceber?
Que aquele abençoado poderia ter sido você?
Com tanta riqueza por aí, onde é que está?
Cadê sua fração?
Com tanta riqueza por aí, onde é que está?
Cadê sua fração?
Até quando esperar a plebe ajoelhar esperando a ajuda de
Deus?
Até quando esperar a plebe ajoelhar esperando a ajuda de
Deus?
Posso...
...Vigiar teu carro?
...Te pedir trocados?
...Engraxar seus sapatos?
Posso...
...Vigiar teu carro?
...Te pedir trocados?
...Engraxar seus sapatos?
Até quando esperar a plebe ajoelhar esperando a ajuda de
Deus?
Até quando esperar a plebe ajoelhar esperando a ajuda do
Divino Deus?
O Plebe Rude não é uma banda cristã! E se você é um roqueiro
de carteirinha deve estar pensando “óbvio!”. Entretanto existe uma música deles
que deveria ser levada aos púlpitos da igreja. O nome desta canção é “Até
Quando Esperar?”. Cresci ouvindo esta música. Sem perceber, ela relatava todo o
cenário que eu via enquanto crescia nas ruas da cidade de Santo André – SP. Até quando esperar traz em sua ideia central o
DNA da queda do homem: o Egoísmo! Como resultado disso, a desigualdade se
espalha desenfreadamente. É claro que este é um problema que vai além das
fronteiras de Santo André. Ele extrapola as fronteiras tupiniquins e alcança
milhares de pessoas pelo mundo a fora. A realidade fica mais cruel ainda quando
vemos que este problema, além de “varar” os limites geográficos, ele também
extrapola a dimensão do tempo. A desigualdade social é um problema que atinge
pessoas em todos os lugares e em todos os tempos. Não é à toa que esta música “Até
quando esperar?” foi escrita em 1984 e soa como uma crítica totalmente coerente
para os dias de hoje! E diria mais, soaria como uma crítica atualizada para
qualquer época, já que o assunto “desigualdade” está no cerne da natureza humana.
Talvez você nunca tenha se perguntado “com tanta riqueza por
aí, onde é que está a sua fração?” mas de fato, o pai que trabalha em 2
empregos para ganhar meio salário mínimo em cada um e sustentar uma família numa
metrópole tão desigual que é São Paulo, com certeza já se perguntou. Por um
lado, no bolso de uma minoria, que, por algum motivo, acha que tem mais direito
que o restante da população, as riquezas bancam os apetites do ego, por outro
lado a grande maioria caminhando sobre o chão da miséria, vivendo em condições
precárias. A rotina nos evidência em cada farol, em cada cruzamento, a miséria
de pessoas pedindo esmolas, buscando sobreviver. Uns querem dinheiro para
sustentar a família, outros querem sustentar o próprio vício. Mas de fato, é
bem provável que, ao ver o magnata parado no farol, com seu conversível
brilhando, na cabeça de ambos vem o
pensamento: “ - aquele abençoado poderia ser eu!”.
O miserável implora para vigiar o carro, engraxar sapatos,
para receber um trocado. Implora por coisas que ele já não vê como um ato na
miséria, mas como um alívio para a condição miserável. Como nós seres humanos
deixamos isso se tornar tão normal diante de nossos olhos?
Já nos acomodamos. Aceitamos a situação com uma facilidade
tão triste que acabamos esquecendo que estamos diante de um dos maiores
problemas causados pela nossa queda no Éden. Ao final, o que resta é ajoelhar e
pedir a ajuda do divino Deus, pois só por um milagre para tirar o miserável da
situação em que ele se encontra.
Mas o que nós como igreja temos a dizer sobre isso? Qual a
nossa atitude perante a desigualdade ao nosso redor? Será que este é um
problema de Deus? Que a prerrogativa de mudar isso tudo é de Deus?
A pergunta da música pode ser para nós que dizemos ser cristãos:
Até quando esperar?
Será que não estamos esperando algo por parte de Deus e Ele
lá de cima está nos dizendo: “Não há o que esperar...olhe para o bom
samaritano, veja o que ele fez pelo homem que estava caído...vá e faça o mesmo
com o seu próximo!”
Há pouco tempo ouvi o Pastor Ed René Kivitz pregando sobre a
diferença entre caridade e justiça. Há uma diferença crucial entre caridade e
justiça. Caridade é você curar HIV com band-aid. Caridade é você curar câncer com
hipogloss. Estou exagerando? Bom...imagine um homem na sarjeta, com frio e fome.
Você passa por ele, então decide lhe dar o casaco que você está usando e pagar
um marmitex. Com o “miserável homem” agasalhado e de barriga cheia você
pensa...pronto, fiz minha parte. Então se despede do homem e via embora.A pergunta é: o homem saiu da condição de
miserabilidade que ele estava? Tudo bem, talvez a blusa fará com que o homem
não sinta mais frio...mas um dia depois o homem estará com fome, e a sociedade
estará passando diante dele de forma indiferente. Aqui você simplesmente “soprou”
a ferida do miserável. Não resolveu o problema. Não devolveu a ele a dignidade.
Fez um ato de caridade, compaixão e amor...mas a situação do homem será a mesma!
Agora olhemos para o samaritano. Ele vê o homem caído. Ele
estava machucado e nu...numa situação miserável. O samaritano poderia ter
cuidado das feridas do homem, vestido o mesmo e ter ido embora. Mas isso não
seria um ato de justiça. O samaritano levou o homem com ele, e decidiu cuidar
do mesmo até que ele tivesse a certeza de que o mesmo teria condições de
caminhar com dignidade. Foi um socorro com pós acompanhamento. Uma ajuda que se
certificou de que todo o necessário para que o homem tivesse a dignidade
restaurada havia acontecido.
Há quem diga que o homem caído no caminho é a humanidade, os
salteadores são Lúcifer e seus demônios, o Sacerdote e o Levita são as igrejas
prostituídas, o Bom Samaritano é Jesus, o animal em que o homem foi carregado é
a cruz, a Estalagem é o Reino de Deus, o Dono da Estalagem é Deus e os “dois
dinheiros” é o sangue de Jesus.
Repare que o bom samaritano segue adiante e diz ao dono da
estalagem: “Cuide Dele, independentemente dos gastos pois eu voltarei para
paga-los”.
Socorro que se certifica de que a dignidade do miserável
seja restaurada! Isso é muito mais que caridade...é justiça! Justiça se faz com
amor, compaixão, onde o único interesse está em ver a restauração da dignidade
do outro. Neste ato tem que haver amor e principalmente, tem de haver nulidade
para os sentimentos de mérito e demérito. Somente amor!
Até quando esperar? Não há mais o que ser esperado. Deus já
nos disse: Vai, e faze da mesma maneira!
Nós como igreja temos que agir desta forma. A resposta já
foi dada por Jesus.
Quanto a outra pergunta: “Com tanta riqueza por ai, onde é
que está, cadê sua fração?” ...infelizmente boa parte desta “fração” está no bolso de pastores evangélicos, políticos corruptos e tantas outras pessoas. É uma
triste realidade. Mas ainda creio em gente (dentro e fora da igreja) que sabe
viver com a fração que lhe cabe, sem usurpar a fração do próximo. Um bom começo
para lutarmos contra a desigualdade é fazermos a nossa parte. Como bem disse Gandhi
(ou Dalai Lama): devemos ser a mudança que desejamos ver no mundo!
Eu acredito que Deus faz muito. Acredito que Deus faz, hoje
e agora, muito mais do que possamos imaginar. Deus tem provido ajuda. O
problema é que o reino de Deus é construído em comunhão, entre Deus e o homem
(uma construção a “4 mãos”), e imagino que Ele tenha confiado ao homem atitudes
que infelizmente o homem não tem cumprido. Como a miséria vai se extinguir se
Deus provê os recursos e o homem usurpa a fração do próximo?
A espera do cristão consiste somente na volta do Cristo. Não
há o que ser esperado para se tomar a atitude de se comprometer em manifestar
aqui e agora a maior densidade possível do Reino de Deus.
Não alicerce a sua indiferença para com a situação de desigualdade de seu próximo nos fundamentos de colocar sobre os ombros de Deus a culpa de um mundo tão desigual. A culpa disso tudo é do ego do homem. O caos ao nosso redor é resultado de nossa queda.
Faça a sua parte. Responda para si mesmo: Os meus atos são de Justiça ou de Caridade?
Tendo terminado de
orar, Jesus saiu com os seus discípulos e atravessou o vale do Cedrom. Do outro
lado havia um olival, onde entrou com eles.
Ora, Judas, o traidor, conhecia aquele lugar,
porque Jesus muitas vezes se reunira ali com os seus discípulos.
Então Judas foi para o olival, levando consigo
um destacamento de soldados e alguns guardas enviados pelos chefes dos
sacerdotes e fariseus, levando tochas, lanternas e armas.
Jesus, sabendo tudo o que lhe ia acontecer,
saiu e lhes perguntou: "A quem vocês estão procurando? "
"A Jesus de Nazaré", responderam
eles. "Sou eu", disse Jesus. ( E Judas, o traidor, estava com eles. )
Quando Jesus disse: "Sou eu", eles
recuaram e caíram por terra.
Novamente lhes perguntou: "A quem
procuram? " E eles disseram: "A Jesus de Nazaré".
Respondeu Jesus: "Já lhes disse que sou
eu. Se vocês estão me procurando, deixem ir embora estes homens".
Isso aconteceu para que se cumprissem as
palavras que ele dissera: "Não perdi nenhum dos que me deste".
Simão Pedro, que trazia uma espada, tirou-a e
feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. ( O nome
daquele servo era Malco. )
Jesus, porém, ordenou a Pedro: "Guarde a
espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu? "
Assim, o destacamento de soldados com o seu
comandante e os guardas dos judeus prenderam Jesus. Amarraram-no
e o levaram primeiramente a Anás, que era
sogro de Caifás, o sumo sacerdote naquele ano.
João 18:1-13
Deus teve apenas um filho santo. Apenas um! Os demais foram
todos pecadores. Entretanto, todos os filhos de Deus, tanto os que foram
criados, quanto o que foi gerado, ou seja Jesus, sofreram. O sofrimento nos
nivela, nos iguala. Inclusive iguala-nos com Deus, pois o Deus revelado na
Palavra é um Deus que sofre. Com base neste alicerce, imagino que seja óbvio
dizer que o Evangelho de Jesus Cristo não é uma fórmula mágica para anular o
sofrimento. Aliás para se concretizar a “Boa Nova” de Jesus Cristo, Deus
assumiu a prerrogativa de sofrer. Ele nos amou e não existe amor sem a
possibilidade do sofrimento.
O texto de João 18:1-13 relata o momento da prisão de Jesus.
Ali começaria a se concretizar o sofrimento que Jesus já sabia que teria de
passar. Jesus estava consciente de que
beberia do cálice do sofrimento, uma bebida carregada pelos nossos pecados e
pela ira de Deus. A singularidade da Grandeza de Jesus de Nazaré na situação é
extraordinária. Primeiramente, a atitude de Cristo que parte do “quem não
deve...não teme”. Quando os soldados chegam o próprio Jesus pergunta: “A quem
estão procurando?”. Imagino uma resposta por parte dos soldados, com um tom de
soberba, do tipo de gente que acha que tem autoridade: “A Jesus de Nazaré”. E
ai Jesus demonstra o quanto estava preparado para enfrentar o sofrimento. Não
tem como não imaginar uma cena onde o tom de voz doce de Jesus responde “Sou eu”
e mediante a resposta todos, inclusive Judas, o traidor, recuando e caindo por
terra. Estar preparado para enfrentar os problemas, o sofrimento, é estar consciente
de que quem não deve nada, não tem o que temer. Diante de alguém que tem uma
vida transparente, todos os seus acusadores recuam e caem por terra, pois a
justiça de Deus para com o homem nasce na atitude do ser humano que busca viver
os valores do Reino de Deus.
O relato continua com Jesus conduzindo a situação. Ele
pergunta novamente “A quem procuram?”. Mais uma vez os soldados respondem: “A
Jesus de Nazaré!”. Então numa demonstração única do que é amar ao próximo,
Jesus, consciente de tudo o que iria passar, disse: “Já lhes disse que sou eu.
Se vocês estão me procurando, deixem ir embora estes homens”. Já parou para
pensar nisso: quando temos um amigo em uma situação ruim, é muito mais fácil
pensarmos nele, em tentar ajuda-lo...enquanto...quando estamos nós, em uma
situação ruim, como é difícil abrir mão de pensar em nós mesmos e pensarmos nos
outros. Jesus sempre pensou no próximo, e aqui não foi diferente. Ele estava
sendo preso, sabia o que iria enfrentar, e ainda assim buscou cumprir o “Não
perdi nenhum dos que me deste”.
Por fim Simão Pedro, impulsivamente, puxa uma espada e corta
a orelha de Malco, um dos soldados. Este relato de João não descreve, mas a
tradição cristã relata que Jesus opera um milagre impressionante: restaura a
orelha de Malco. Imagino a cabeça deste homem, Malco, como os pensamentos dele
foram desconstruídos com a atitude de Jesus: “Venho prender um homem, que nem
sequer cometeu crime algum, um de seus homens corta a minha orelha, e o homem
que vim prender me concede a graça do milagre de restaurar a minha orelha?”.
Não é à toa que muitos teólogos alegam que Malco se converterá a mensagem do
Cristo posteriormente.
Que contexto não? Imagino que se mobilize um batalhão do
BOPE para prender um traficante. Mas um batalhão do BOPE de Roma, liderado por
um homem que comia na mesma mesa que Jesus, um traidor, para prender um ser
como Jesus de Nazaré, dócil, amoroso e bondoso...só escancara a condição suja
que nós humanos estamos.
O dia do sofrimento de cada um de nós há de chegar, assim
como chegou para o próprio Deus. É inevitável. Jesus não foi um avatar de Deus.
Jesus é Deus. A cruz expressa algo que ocorreu na eternidade, expressa o
sofrimento de Deus aos olhos humanos. O Evangelho de Cristo nos traz a consciência
necessária para que o homem enfrente este dia. Somos desafiados a enfrentar o
sofrimento com a mesma grandeza que o Cristo enfrentou. Precisamos assumir a
mesma atitude de Jesus.
Jesus quando orou, clamou pela vontade do Pai. Aceitou o cálice
do sofrimento. Por que nós insistimos em fazer da oração um meio de blindar as
nossas vidas contra todos os males, para que passemos pela vida sem resvalar
nos espinhos que estão espalhados pelo caminho. Oramos para pedir para Deus
tirar os espinhos quando precisamos orar pedindo para Deus ir conosco pelo
caminho. O evangelho de Jesus não é uma bolha para nos proteger contra as
coisas malignas. O evangelho de Jesus é a certeza de que Deus caminhará conosco
sempre, independente dos espinhos, guardando nosso coração de se tornar mal.
O que determina o nosso caráter? As situações da vida ou os
valores que Jesus nos ensinou com o seu viver?
Um dia o sofrimento vai bater na nossa porta é
inevitável. Que neste dia a gente esteja com Jesus.
Assim como já aconteceu comigo, as vezes encontro alguns
irmãos em fase de transição, procurando uma nova igreja (instituição) para congregar.
Os motivos? Diversos! Uns por que se casaram e estão mudando de cidade, outros
por que acham que o local atual “não há poder, não acontecem milagres”, outros
por que não se sentem bem na igreja atual...e por ai vai. O fato é que nestes
momentos eu ouço sempre um comentário que me incomoda muito: “Encontrei uma
igreja e acho que a partir de hoje vou começar a ir lá...eu me sinto tão bem
lá!”. Para ser mais exato, o problema está no “eu me sinto tão bem lá”.
Abro um parêntese importante aqui...
Entenda...não vejo problema algum as pessoas procurarem uma
nova igreja para congregar. Aliás sempre tive um pé atrás com igrejas que
funcionam como “prisão”, com o discurso afiado de que se sair da instituição é
por que virou um desviado. Lógico que não dá para generalizar todos os casos,
mas a grande maioria das instituições aprisionam os seus fiéis. Sinceramente, não
vejo o cristianismo como uma prisão e instituições assim são muito mais casas
religiosas do que uma comunidade de celebração. Religião aprisiona, abusa, e na
maioria das vezes é demoníaca. Caminhada da salvação é em Cristo Jesus e não em
uma instituição. A instituição é uma maneira de se organizar a comunidade, e
tem sim um papel importante, mas a partir do momento que aprisiona, ela cria
muito mais caminhos de discórdia e morte do que caminhos de comunhão e vida.
Quer um exemplo:
Não consigo entender pessoas que colocam ...Deus em primeiro
lugar...a igreja em segundo e a família em terceiro! É o familiar morrendo na
UTI e o irmão com o peso e a culpa de não poder estar junto do mesmo por que
tem que estar ensaiando com o coral. É o filho que vive na igreja e não vê mais
os pais por que os mesmos não são crentes. É a mãe crente que tem paciência em
dar aula para crianças dentro da igreja mas espanca o próprio filho dentro de
casa! É o pai que não vê o filho crescer por que o ministério de música tem
ensaios excessivos. Há algo errado nisso. Se não conseguimos organizar o nosso
próprio lar...não seria soberba demais achar que podemos conseguir organizar a
igreja?
Creio que a instituição tem um papel fundamental para
organizar a comunidade, mas jamais será mais importante do que a família. De
fato, a única maneira que temos para servir à Deus é servindo pessoas, e neste
contexto, antes de você assumir um compromisso com uma instituição, você deve
assumir um compromisso com o seu lar (obviamente que não podemos esquecer que o
compromisso primeiro é com Deus).
Bom...mas isso é uma opinião própria...consulte a Palavra,
ore e tire suas conclusões.
...fecho parêntese!
Enfim, voltando para o contexto inicial: “Eu me sinto tão
bem lá!”. Será que realmente o Evangelho de Jesus é um convite a nos sentirmos
bem com nós mesmos? Será que o objetivo é nos deixar “de bem com a vida”?
É claro que eu não desejo que as pessoas saiam da igreja
carregando um fardo de culpa nas costas. O Evangelho de Jesus não é um
Evangelho de Culpa. Mas não consigo entender pessoas que recebam a mensagem da
Cruz e não olhem para si mesmo e digam como Paulo: “Miserável homem que sou!”.
Isso me lembra um fato contado pelo Pastor Ricardo Gondim:
Existiam 2 ótimos pregadores em uma comunidade. Diversas
pessoas estavam conversando para ver qual deles era o melhor (...impressionante
como isso ocorre nas igrejas). Então foram até um ancião para questioná-lo
sobre sua preferência. Eis que o ancião respondeu: “Os dois são ótimos teólogos.
Entretanto, quando fulano prega, eu me sinto bem, e quando outro prega, eu me
sinto mal comigo mesmo!”.
O Cristianismo não é uma caixa de chocolate para lhe dar
prazer. Não é uma fatia de tempo reservado no domingo, para que você recarregue
baterias e se sinta bem para encarar o resto da semana. O Cristianismo
escancara a nossa queda, nos expande a consciência de nossa “miserabilidade” e
nos faz cair de joelhos clamando por misericórdia e graça.
Não há nada de errado em se sentir bem, mas há algo de muito
errado em achar que o cristianismo é uma garrafa de vinho que lhe fará relaxar.
Se o evangelho de Cristo não expande a sua consciência de tal forma que você
fique incomodado consigo mesmo, então é bem capaz que você não esteja
encontrando em Jesus um Deus Salvador. Talvez esteja encontrando um ídolo.
Jesus é mais que isso: Ele é Deus!
Igreja não é lugar para se sentir confortável. Não é lugar
para soluções mágicas. Aliás o sobrenatural de Deus não são soluções mágicas. O
sobrenatural de Deus está além da compreensão humana.
Se você, por um acaso, se pegar dizendo “Eu me sinto bem lá”,
acenda uma luz de emergência na sua consciência, pois é bem provável que você
esteja criando uma zona de conforto espiritual. Imagino que para o diabo, você
estando na igreja, se sentindo bem, e fora do caminho de Deus, seja o melhor
dos mundos, pois o comodismo cega, anestesia a consciência e traz a sensação do
autojulgo: “Estou no caminho!”.
Como disse C S Lewis...se você quer se sentir bem...não te
recomendo o Evangelho de Jesus, te recomento tomar uma garrafa de vinho do
Porto. Se o evangelho não incomoda, então dificilmente haverá o ponto de
partida para o velho homem morrer e a nova criatura nascer, pois não há vasão
para o agir do Espírito Santo. Se o evangelho não incomoda, a rebeldia segue o
seu ciclo em direção a morte, com uma consciência anestesiada pelo comodismo
religioso.
Se você estiver se sentindo mal consigo mesmo, pregação à pregação...dê um glória a Deus...pois é bem provável que o Espírito Santo esteja lhe convencendo do seu pecado e lhe conduzindo para a Graça!
Que o Senhor nos dê discernimento para que o Espírito Santo
possa nos convencer cada vez mais de nossos pecados!
Uma lenda árabe conta que dois amigos viajavam pelo deserto
certo dia discutiram. Um deles esbofeteou outro, que ofendido e sem nada dizer
escreveu na areia "Hoje, meu melhor amigo me bateu no rosto". Mais
tarde fizeram as pazes e seguiram viagem. Ao chegar a um oásis resolveram tomar
banho. O que havia sido esbofeteado começou a afogar-se, mas o amigo salvou-o.
Quando recuperou escreveu numa pedra "Hoje meu melhor amigo salvou-me a
vida". Intrigado, o amigo perguntou:
- Por que depois que te bati, você escreveu na areia e agora
escreveu na pedra?
Sorrindo, o outro amigo respondeu:
- Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever na
areia, onde o vento do esquecimento e do perdão se encarregam de apagar. Porém
quando nos faz algo grandioso, devemos gravar na pedra da memória do coração,
onde vento nenhum do mundo poderá apagar!
Perdoar é difícil,
porém necessário! ...essa frase soa como um chavão...mas é uma das verdades mais
desafiadoras na qual o ser humano tem de aprender a viver. A lenda árabe
que acabamos de acompanhar é muito bonita. Entretanto há um detalhe nela que
passa desapercebido: o fato de se interligar o perdão ao esquecimento. Não
creio que perdoar seja necessariamente esquecer a ofensa. Tudo bem, o contexto
da lenda pode trazer a conotação “vento do esquecimento” do tipo, eu sei o que
você fez para mim, mas vou fazer vistas grossas. Não, não creio que perdão seja fazer “vistas
grossas” à ofensa. Perdoar é mais profundo do que isso. Talvez, raros são os
humanos que realmente tenham experimentado plenamente o ato de perdoar. Perdoar
é lembrar sem rancor, lembrar sem dor para com o outro...é assumir o dano para si. Isso vai além
das vistas grossas. Isso implica na responsabilidade de olhar para o dano e
para o causador do dano e assumir para si o ato de lidar com a dor, sem
computar no outro a culpa. É assim que acredito ser o perdão. É isso que vejo
na cruz do calvário. Um Deus que tinha em Suas mãos a prerrogativa de nos
aniquilar, mas não computou culpa em nós e assumiu para si o dano, consumando
este ato se sacrificando e morrendo em nosso lugar.
Não, não creio que Deus tenha feito vistas grossas para a
cusparada que nós demos na cara Dele. Não creio que Ele tenha esquecido, que
Ele tenha simplesmente passado uma borracha nas coisas e varrido tudo para
debaixo do tapete de Seu Trono. Certa vez ouvi (confesso que não me lembro de
quem) que no céu todos nós teríamos os nossos corpos em perfeição e que apenas
o corpo de Jesus permaneceria com as Suas chagas, para que todos os homens
vissem Nele as evidências de um Deus que nos amou incondicionalmente à ponto de
entregar Sua própria vida para assumir o dano (pecado) que nós causamos.
Sinceramente não sei afirmar se será exatamente assim. Caso seja assim...para
uns isso pode soar como um ato de Deus jogando na nossa cara o fato de que Ele
nos salvou. Para outros (e me incluo nestes) soa muito mais como uma evidência
de que Ele nos ama incondicionalmente, e que este amor é imensurável, pois
custou a vida do próprio Deus (em outras palavras...seria a evidência explícita
de que um homem vale a vida de Deus).
Deus não esqueceu o nosso pecado. Mas concedeu perdão. Ele
não é um Deus sem critérios de Justiça. É um Deus justo e há de julgar a todos.
Como é bom saber que o Deus revelado na face de Jesus é um Deus de Amor e não
um carrasco com um machado na mão. Ele é bom, justo, verdadeiro e fiel.
Sei que pode parecer uma hipocrisia minha dizer isso, mas
dou glórias à Deus por Ele não se esquecer dos meus pecados. Não há virtude
nisso e jamais isso será uma justificativa para pecar. Talvez você poderia
dizer “Santa heresia Batman!”...mas tenho dentro de mim a sensação de que Deus
não é um Senhor de Méritos e Deméritos...não é um Pai que computa créditos e
nem débitos...mas sim um Deus que olha a nossa natureza e vê o quanto carecemos
de amor. Quando Deus olha para o pecado da gente e vê em paralelo o quanto
buscamos ser parecidos com Cristo, Ele permite que a gente possa experimentar
mais profundamente a Cruz do Calvário. A virtude nisso é ter a profunda
experiência do perdão tendo consciência de que Deus não esqueceu o pecado, mas
que Ele não lembra do nosso pecado com ódio, dor e rancor, pois o perdão divino
já está em percurso, agindo em nosso ser. Isso pode ser traduzido como o ato de
Deus transformar o que não vale à pena ser amado em o que vale à pena ser
amado. É como Martinho Lutero certa vez disse: “Somos amados não por que somos
perfeitos, mas por que o amor de Deus é perfeito. O amor de Deus se destina ao
que não vale a pena ser amado, mas cria o que vale a pena ser amado”.
Ser perdoado é “aparentemente” mais fácil do que perdoar.
Vestir a pele daquele que recebe o perdão aparenta ser muito mais fácil do que
aquele que tem em si a prerrogativa de conceber o perdão. Mas ambos papéis tem
suas dificuldades. Não consigo ver uma pessoa ter plena experiência de receber um perdão sem
passar pelo processo de humilhar o próprio ego (em outras palavras...sem
reconhecer que precisa ser perdoado). Da mesma forma, não consigo ver a pessoa
que concebe o perdão tomar a atitude de perdoar sem estar disposta a se
humilhar. Ora, Cristo não foi humilhado pelos homens antes de ser pregado na
cruz?
Você pode me dizer..."isso é lindo no papel...mas na prática...todos sabemos que não é assim". Concordo...mas temos que tentar. Termino com um vídeo que vi recentemente e me senti muito
tocado...espero que o mesmo lhe aproxime mais ao caráter de Cristo...
Há quem diga que guardar ódio,
rancor, e não liberar perdão...é o mesmo que tomar um copo de veneno esperando
que o outro morra.
Sei que o vídeo expressa um curto
espaço de tempo de uma situação que será levada por toda uma vida...mas imagino
a atitude desta mulher como uma expressão dos dois mandamentos que resumem a
lei de Deus: Amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como o Próprio
Deus nos amou, ou seja...incondicionalmente. Só podemos amar verdadeiramente o
próximo se primeiramente amarmos à Deus...pois é amando à Deus que aprendemos o
que é verdadeiramente amar.
Para muitos a atitude desta mulher é loucura...assim como diversas atitudes de Cristo foram vistas como loucas...mas a verdade é que o Evangelho é loucura para os homens!!! A boa notícia é que o que realmente vale é o que Deus pensa...e não os homens!
Por um bom tempo achei que o plano de redenção de Deus era
um ato do próprio Deus em pró de nos levar de volta para “antes de Gênesis 3”.
Para melhor entendimento, o “antes de Gênesis 3” que me refiro é o Jardim do Éden,
onde o homem vivia em plena comunhão com Deus. No caso, o Gênesis 3 entra como
o relato (ou se preferir, “o marco”) da nossa queda. Foi depois de termos
optado viver independentemente de Deus (explicitando esta decisão no ato desobediente
de optar em comer da árvore do conhecimento do bem e do mal ao invés de comer
da árvore da vida), ou seja, depois de vivermos o Gênesis 3... que demos início
ao caos que é este mundo no qual vivemos. Imaginava eu que, a salvação era
vencer a morte e retornar para o Éden, o Jardim que Deus havia criado para
viver juntamente com o homem.
Com o passar do tempo, uma pergunta evoluiu em minha mente.
Me questionava: “será que o alvo da vida do cristão está no retorno ao Éden, na
Nova Jerusalém, no Paraíso, no Céu???“
E aqui acabava por me perguntar: será que estes lugares
(Éden, Paraíso, Nova Jerusalém, Céu) são os mesmos?
Com o passar do tempo comecei a perceber que Deus deseja nos
levar para casa, mas não necessariamente para o Éden, Paraíso ou Nova Jerusalém.
Isso por que a casa do ser humano não é um lugar, mas sim uma Pessoa: Deus. Nele
está o nosso lar. Por isso quando a Palavra diz algo sobre o Paraíso, imagino
não um lugar, mas sim Deus. Todo lugar onde Deus está presente exercendo Sua
vontade é um paraíso. Não existe um Paraíso sem a presença de Deus. Quando olho
para a “Nova Jerusalém” relatada em Apocalipse, não imagino simplesmente uma
nova versão do Éden, imagino um lugar onde Deus está presente e trabalha em
comunhão com o homem. Não Deus criando tudo sozinho, mas Deus compartilhando, em
comunhão com o homem, o prazer do “trabalhar junto”. Não é à toa que Deus nos
vê como Sua habitação. Somos vocacionados a ser Morada Dele. E não é à toa
também que Deus deseja que habitemos Nele, com a mesma comunhão que Jesus nos
demonstrou. Talvez seria muita ousadia dizer que Deus é vocacionado a ser
morada do ser humano (acho que você está pensando: “muita ousadia não...muita
heresia isso sim”...respeito isso se for o caso). Mas o fato é que o
relacionamento entre Deus e o homem parte muito mais de Deus do que do homem,
pois o alicerce que produz vida vem do próprio Deus, pois Ele detém o sopro de
vida. A ação parte de Deus...e a reação, a consequência, cabe ao homem. Este
ato primeiro, o de Deus, é fundamentado pelo amor, que por sua vez assume a
responsabilidade de ter como reação a indiferença. Justamente esta foi a nossa
atitude em Gênesis 3.
Nova Jerusalém, Céu, Paraíso, Éden...não é ai que mora o
destino do homem. O destino do homem é ser gente como Jesus de Nazaré. Nesta
linha de raciocínio, a Nova Jerusalém, o Céu, o Paraíso, o Éden, se encaixa
muito mais como uma consequência do que um ponto de chegada. Por isso o alvo do
cristão é Jesus. Ele transforma todo lugar em Nova Jerusalém. Ele transforma
todo lugar em Paraíso. Ele torna a nossa vida um céu. A Sua Presença detém o
poder de fazer isso. Muito mais do que ir para Nova Jerusalém, retornar para o Éden
(sinceramente, sei lá se estes lugares são os mesmos, acredito que não...acho que o Eden é o coração do Homem...e a Nova Jerusalém é o coração do homem que está em total submissão à Deus...mas enfim...é um "achômetro")...o
lugar almejado pelo cristão é estar perto de Jesus, para juntamente com Ele
poder viver uma comunhão santa e vivenciar eternamente a plenitude humana. O nosso
destino é Jesus...ser gente como Ele. É para chegar até Ele que peregrinamos.
Para ser como Ele é. A consequência disso é o privilégio de adora-lO e viver em
comunhão com Ele, no lugar onde Ele estiver.
Percebe como é indiferente se questionar se devemos retornar
ao Éden ou ir para a Nova Jerusalém?
Bom, mas se ainda assim você se perguntar isso...a resposta é: vá para a Cruz! Não pense em Paraíso sem antes pensar na Cruz. Se fizer isso, estará fazendo como o torcedor que já está pensando na final sem ter chegado na semi-final.
A diferença do Cristão é fundamentada nos passos em direção
à Cristo, para se tornar gente como Ele é!
E-mails (normalmente contendo propagandas ou vírus) enviados
em massa para um grande número de pessoas. Assim podemos resumir a definição de
"SPAM". Quem nunca viu na caixa de e-mail uma pastinha chamada “SPAM” na qual os e-mails
“suspeitos” são automaticamente direcionados? Agora pare e pense...quantos de
nós lemos as mensagens enviadas como SPAM? Tirando algumas exceções, geralmente
selecionamos todas as mensagens e deletamos. SPAM para nós, é “praticamente”
sinônimo de lixo eletrônico.
O fato é que muitos cristãos (e por um bom tempo, reconheço
que agi assim) estão confundindo o Evangelho com Mensagens de SPAM. Acham que a
boa nova é algo a ser jogado em massa para a massa. Basta empacotar, colocar os
destinatários e clicar no enviar. Quem quiser ler ...que leia! Quem não quiser
ler...que exclua! É a milha de panfletos evangélicos atirada do topo de um prédio
alto, na 25 de Março (a grande probabilidade é que, neste ato, o maior êxito que você conseguiria seria ...dar mais trabalho para os Garis da cidade!). Eu sei que muitos
que estão lendo este texto, neste exato momento, devem estar pensando: “Quem é
você para criticar meios de evangelização?”. De bate pronto já lhe digo: passo
longe de ser um “expert” em evangelização e longe de mim afirmar que exista um
único meio de evangelizar. Aliás, o ponto central no qual quero lhe convidar a
pensar não é o “meio” em si da evangelização. A questão é outra. O ponto
central é como enxergamos esta Boa Nova, este Evangelho que as Escrituras
Sagradas nos revela.
A Boa Notícia é muito mais que uma mensagem. Vai além de um
conjunto de textos bíblicos empacotados em uma linha de raciocínio. A Boa
Notícia é um ser, mas não qualquer ser. O Evangelho é uma pessoa, mas não
qualquer pessoa. O Evangelho é um ato de Graça, um favor no qual não se computa
méritos (aliás jamais fomos merecedores) por parte de Deus para conosco. É o
ato de graça consumado no rosto de Seu Filho Amado que se doa, que se esvazia
da prerrogativa de ser Deus e assume a prerrogativa de se tornar pecado na cruz,
levando em si não a maldade própria, pois Nele não havia maldade, mas sim o mal
de todos nós, o pecado de todos nós, descendentes de Adão. O Evangelho é Jesus.
O Evangelho é a Pessoa na qual a gente, filhos de Adão, estamos destinados a
ser. Em Jesus somos destinados a sermos humanos em plenitude. Ele é gente de
verdade, é um ser que tem em plenitude a essência de humanidade projetada por
Deus, o Criador, Seu Pai.
O Evangelho precisa ser explicado com o viver de uma vida
baseada na vida do Cristo. Como disse São Francisco de Assis: “Anuncie o
evangelho, se precisar use palavras”. Não adianta empacotar o Evangelho num e-mail
e dispará-lo como um SPAM. Se for tratado assim, as pessoas simplesmente pressionaram
“delete” sem ao menos ver o que é. Isso é o mesmo que manter a bíblia fechada na
estante. O Evangelho não é uma mensagem de publicidade (Gospel) para vender milagres
e bênçãos. Não é um vírus empacotado, disfarçado, para enganar pessoas. O
Evangelho é a explícita salvação no rosto de Jesus. Ele liberta o homem da
natureza maligna. Restaura o nosso ser e nos aproxima a imagem e semelhança de
Cristo. As pessoas precisam entender isso, precisam ver a verdadeira humanidade
na qual somos destinados nos relatos da vida do Cristo que estão registrados na
Santa Palavra de Deus.
Fico imaginando o relato de Atos 8:26-40:
E o anjo do Senhor
falou a Filipe, dizendo: Levanta-te, e vai para o lado do sul, ao caminho que
desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta.
E levantou-se, e foi;
e eis que um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes,
o qual era superintendente de todos os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém
para adoração,
Regressava e,
assentado no seu carro, lia o profeta Isaías.
E disse o Espírito a
Filipe: Chega-te, e ajunta-te a esse carro.
E, correndo Filipe,
ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: Entendes tu o que lês?
E ele disse: Como
poderei entender, se alguém não me ensinar? E rogou a Filipe que subisse e com
ele se assentasse.
E o lugar da
Escritura que lia era este: Foi levado como a ovelha para o matadouro; e, como
está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, Assim não abriu a sua boca.
Na sua humilhação foi
tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é
tirada da terra.
E, respondendo o
eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de
algum outro?
Então Filipe, abrindo
a sua boca, e começando nesta Escritura, lhe anunciou a Jesus.
E, indo eles
caminhando, chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que
impede que eu seja batizado?
E disse Filipe: É
lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus
Cristo é o Filho de Deus.
E mandou parar o
carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e o batizou.
E, quando saíram da
água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, e não o viu mais o eunuco; e,
jubiloso, continuou o seu caminho.
E Filipe se achou em
Azoto e, indo passando, anunciava o evangelho em todas as cidades, até que
chegou a Cesaréia.
Imagino que o Eunuco recebeu a Palavra como um “SPAM”, ou se
preferir... um folhetinho de evangelização. Ele se fez exceção ao ler a
mensagem. Mas se Felipe não aparecesse, acredito que a Palavra não iria
produzir vida no coração daquele homem. De fato, é importante distribuir
folhetos, enviar e-mails cristãos...etc. Mas ação sem assumir a consequência é ação sem
responsabilidade. Isso quer dizer que vale muito mais se dispor a ter uma boa
conversa com alguém sobre o Evangelho, anunciando o ser humano que podemos ser
no Cristo, do que jogar folhetos e mais folhetos achando que as pessoas vão “deduzir” um
Deus ali. Em outras palavras, precisamos agir como Felipe, que dá um passo a
mais e se importa. Se dispõe a explicar, a dialogar, a pensar junto.
Quantos Eunucos estão por ai, tentando esmiuçar pensamentos
e entender as Escrituras Sagradas? Quantos de nós estamos dando um passo além e
dizendo: “posso lhe ajudar a entender?”????
Parece ser uma ironia da minha parte, pois escrevo aqui
palavras que serão lidas por pessoas que jamais sequer conheci e conheço. Mas é
justamente aqui que proponho o início do diálogo. Por isso há aqui um espaço
para comentários. É um convite a pensarmos juntos. O Evangelho não é um SPAM a
ser disparado sem se importar. O Evangelho é uma mensagem que deseja ser
compreendida. Não é uma mensagem enviada por um Deus que pensa: “estou indiferente...se alguém ler...muito bom...se
não ler...não to nem ai!”. Não...mil vezes não. O Evangelho é muito mais do que
isso. É Deus dizendo: “Quero que todos voltem para casa!”...e imagino que Deus
leva muito a sério esta palavra “todos”...e que a cada “um ser humano” que se
escapa deste “todos”...há uma profunda tristeza no coração de Deus.
Não “cuspa” textos bíblicos por ai. Não se deixe levar pelo
povo. Deixe de lado o mundo “gospel”. Abro um parêntese aqui...
O termo “gospel” é o nome que o ser humano deu a um mercado que
faz do Evangelho de Jesus Cristo um produto a ser comercializado. Não me
espanta que as pessoas utilizem o termo “Gospel” para maquiar um “SPAM comercial”
do Evangelho. O Evangelho de Cristo é um evangelho de Graça. Nele, a palavra “preço”
é muito mais uma premissa assumida por Deus (na Cruz) do que pelo homem. O homem
tornou o conteúdo das Escrituras Sagradas comercializável. Viu cifrões nos
versículos e passou a pinça-los e colocar notas musicais sobre os mesmos. Tornou
algo que é Graça como um giro de capital. É vergonhoso, pois muitos vivem uma
vida que passa muito longe daquilo que estão anunciando.
Fecho parêntese!
O Evangelho não é SPAM. Parafraseando “Uma casa pode conter
um amontoado de tijolos, mas um amontoado de tijolos não é, necessariamente,
uma casa” podemos dizer “Um sermão pode conter um amontoado de textos bíblicos,
mas um amontoado de textos bíblicos não é, necessariamente um sermão”. A
mensagem do mundo gospel não é necessariamente o Evangelho de Jesus. A mensagem
do mundo gospel está muito mais parecida com um SPAM comercial religioso do que com o Evangelho que
Jesus nos convida a viver valores de vida com qualidade eterna. Pensar não é pecado. Pelo contrário, pensar é uma
poderosa arma que temos para lidar com o pecado. Por isso John Stott afirmou: “Crer
é também Pensar”. Evangelizar não é jogar a mensagem de qualquer jeito, como um
SPAM. Evangelizar é viver a mensagem do Cristo.
Que o Senhor siga nos guardando em Sua abundante Graça.